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05 setembro, 2008

Linha de Passe - Análise

Diariamente, milhões de brasileiros vivem histórias de superação e frustração. Contudo, nem sempre esta busca por algo melhor é facilitada. A sociedade impõe limites e barreiras que precisam ser ultrapassadas para que preconceitos e pré-julgamentos sejam superados, e os sonhos finalmente concretizados. Mas este caminho, para a grande maioria, é geralmente árduo, e a desigualdade social, uma verdadeira inimiga. Isto é o que prova Linha de Passe (2008), dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas, que traz em seu elenco José Geraldo Rodrigues e João Baldasseirine, dois atores de Indaiatuba, e estréia nos Cinemas Multiplex Topázio.

Cine - Linha de Passe1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim como em Terra Estrangeira, Walter Salles coloca a juventude no centro de Linha de Passe, ao acompanhar o cotidiano de uma família, durante alguns meses, na periferia de São Paulo. Em uma família sem pai, Cleuza (Sandra Corveloni, que levou o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2008), de 42 anos, está grávida do quinto filho. Ela trabalha arduamente como empregada doméstica, enquanto luta para manter os filhos na linha, apesar de todas as dificuldades.

Reginaldo (a revelação Kaique de Jesus Santos) é o mais novo, e o único filho de pai negro da família. Pai que nunca conhecera. Dario (Vinícius de Oliveira, que trabalhou com Salles em Central do Brasil) vive o sonho de se tornar jogador profissional, mas prestes a completar 18 anos, vê sua chances diminuírem diariamente. Dinho (José Geraldo Rodrigues) trabalha como frentista em um posto de gasolina e busca na religião um caminho para se manter na linha. Denis (João Baldasseirine) é o mais velho da turma, e trabalha como motoboy para pagar suas dívidas e ainda ajudar seu filho, que visita raramente.

Entre 19 milhões de habitantes, estes quatro irmãos tentam reinventar suas vidas. Mas esta não será uma tarefa fácil. Reginaldo mata aula para andar de ônibus o dia todo, em busca do pai. Dario finalmente consegue uma chance no futebol, mas nem mesmo seu talento será suficiente para garantir um futuro digno. Dinho resolve auxiliar o pastor da igreja evangélica que freqüenta, mas logo verá que Deus não é tão bonzinho quanto se prega. Pressionado pelas dívidas e o estresse diário da rotina de motoboy, Denis se “encanta” com a possibilidade de conseguir uma renda extra, de maneira pouco honesta.

Cine - Linha de Passe2

REALIDADE

O roteiro escrito por Walter Salles e Daniela Thomas, com colaboração de Bráulio Mantovani (indicado ao Oscar por Cidade de Deus), é inspirado em dois documentos realizados por João Moreira Salles, irmão de Walter. O primeiro é a série Futebol, exibida pelo canal GNT em maio de 1998, que relata os esforços de um jovem para se tornar jogador de futebol profissional. Já Santa Cruz, exibido pelo mesmo canal em 2000, acompanha a construção de uma igreja evangélica em um loteamento clandestino no subúrbio carioca. Para encerrar, o personagem de Reginaldo é inspirado em uma história real, registrada anos atrás.

Encantados com estas histórias reais de gente que trabalha e luta para manter a sanidade em meio a um cenário caótico, Salles e Thomas resolveram reunir tudo isso em um núcleo central, retratando a pobreza e a desigualdade social sem concessões, e como tantas dificuldades podem ser vencidas em família, onde eles só podem contar um com o outro.

Em uma crescente espiral de tensão e provações, os personagens são confrontados com seus maiores medos, por mais banais que eles pareçam. Reginaldo se sente deslocado entre seus irmãos brancos; Dario arruma amigos de classe média alta e conhece subterfúgios para suas decepções; Dinho coloca sua fé em xeque quando se entrega a sentimentos “mundanos”; e Denis encontra um “amigo” para sua nova missão: assaltar veículos no trânsito paulistano. Impotente, Cleuza assiste a tudo e aparentemente impotente, se desdobra para manter a unidade familiar.

Com a montagem brilhante de Gustavo Giani (O Passado) e Lívia Serpa (Santiago), direção de arte encantadora de Valdy Lopes Jr. (Cidade Baixa), fotografia inspirada de Mauro Pinheiro (Cinema, Aspirinas e Urubus) e uma trilha sonora perfeitamente elaborada por Gustavo Santaolalla, vencedor do Oscar por O Segredo de Brokeback Mountain e Babel, Linha de Passe é o retrato perfeito de uma metrópole cercada de violência e desigualdades, na qual os sonhos têm tudo para não se tornar realidade.

No entanto, contra todos os prognósticos, muitos ainda permanecem na luta, crentes de que podem construir sua própria história, apesar dos erros cometidos ao longo do caminho. Erros que se repetirão muitas vezes, mas servirão como auxílio na construção de um futuro a ser escrito e que pode – e deve – ser idealizado por cada um de nós. Assim como em Linha de Passe, o final de nossa história é uma incógnita diariamente construída pelas decisões que tomamos e os tombos que levamos pelo caminho.

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