Topázio Cinemas Apresenta: 2 Coelhos

Por Joel Júnior, do blog Cinema Exalando

São poucos os filmes que conseguem fascinar pelo seu visual, e são poucos os diretores que também conseguem imprimir sua marca e seu estilo. Diretores como Quentin Tarantino (Cães de Aluguel, Pulp Fiction), David Fincher (Clube da Luta) Guy Ritchie (Snatch - Porcos e Diamantes) conseguem fazer isso muito bem e viram referências a outros diretores sendo copiados a exaustão em outros filmes, alguns com resultados satisfatórios. Mas a grande maioria, ao tentar copiar, acaba se dando mal. Para o seu filme de estreia, as referências que o diretor Afonso Poyart utiliza são sim do cinema americano e dos diretores citados, mas com um diferencial: ele consegue utilizar tudo a seu favor e imprimir um estilo próprio e inédito no cinema nacional.

Apesar do gênero ação ser pouco explorado por aqui, Poyart resolveu assumir todos os riscos e criou algo fantástico visualmente. Para conseguir realizar tudo o que desejava, ele injetou uma grande dose de efeitos especiais no longa, mas não de forma gratuita, e sim de uma maneira que ajuda a contar a história. O grande diferencial do filme é a forma com que o roteiro é tratado. Em momento algum as cenas de ação e os efeitos ultrapassam a história, o que é tão comum em outros filmes que exageram em explosões e tiros para tapar uma aparente falha no roteiro, aqui a ação toda anda de mãos dadas com os fatos relatados. São usadas ainda referências à cultura pop como videogames e animes. Câmeras lentas são utilizadas de maneira correta e até animações surpreendem da maneira que são apresentadas, tudo ajudando a definir a identidade visual do filme.

O roteiro é um show a parte. Somos apresentados a Edgar (Fernando Alves Pinto, vale a pena ficar de olho nele), um jovem que se encontra na mesma situação da maioria dos brasileiros, sem saber o que fazer da vida acaba vivendo entre a criminalidade das ruas e a corrupção do poder público. De volta a São Paulo depois de passar alguns anos fora do Brasil, e cheio de remorsos e arrependimentos, ele decide elaborar um plano para punir políticos e bandidos, diretamente ligados.

Na medida em que o plano está em andamento conhecemos os outros personagens. Quem os apresenta é o próprio Edgar, que narra à entrada de cada um em cena. Por exemplo, surge o chefe da quadrilha Maicon (Marat Descartes, maravilhoso, quase roubando todo o filme pra ele), o bandido Velinha (Thaíde), o professor amargurado Walter (Caco Ciocler), a defensora pública com síndrome do pânico Julia (Alessandra Negrini), só para citar alguns.

A grande sacada é a utilização do roteiro não linear que prende a atenção, abusando de idas e vindas na história. O que aparentemente no começo é confuso, aos pouco vai se encaixando e dando sentido a tudo o que o protagonista está querendo fazer, conhecendo assim toda sua história e explicando o motivo de suas ações, nenhum personagem está ali simplesmente por estarem, todos tem importância e ajudam a ligar os fatos. Apesar dos estilos exóticos, nos divertimos e criamos empatia por eles e embarcamos cada vez mais em suas histórias. Percebe-se que foi dedicado um grande tempo na preparação dos atores, pois todos estão ótimos e convencem bem.

Além dos fantásticos efeitos e da edição caprichada, a trilha sonora usa canções conhecidas, sejam elas do 30 Seconds To Mars, Lenine, Radiohead e até funk carioca, para embalar cenas, encaixando-se perfeitamente, parecendo até que foram escritas para o filme.

Com um apuro técnico digno de superproduções, 2 Coelhos a princípio empolga pela parte visual, mas conquista também pela história, que é muito simples apesar da maneira surpreendente que foi contada. E no final tudo se encaixa perfeitamente, outro mérito, pois os roteiristas conseguiram amarrar todos os fatos sem deixar buracos ou perguntas sem respostas, cada cena mostrou sua importância, mesmo que a explicação completa venha no último minuto, numa cena que arrepia e emociona e é completamente aceitável.

2 Coelhos é ousado e inovador, mas acima de tudo é cinema de verdade, o que está se tornando cada vez mais extinto em produções nacionais, que atrás de grandes bilheterias preferem investir em comédias de baixo nível com atores conhecidos levando a estética da TV para as telas, o que não funciona.

2 Coelhos tem capacidade para conquistar uma geração de jovens ligados em tecnologia, em jogos e em filmes de ação. Conquista também quem procura uma narrativa cheia de enigmas, que vai se desdobrando e se encaixando, levando o espectador a se deliciar com tudo.

Se o filme vai virar referência a outras produções ainda não se sabe, o que se sabe mesmo por enquanto é que filmes de ação feitos para grandes plateias podem sim ser inteligentes, divertidos e inovadores. E quando eles são feitos no Brasil a satisfação é ainda maior. 2 Coelhos comprova tudo isso.

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