Crônica de uma Saudade Anunciada

Quase 7 horas da manhã. 23 de outubro de 2003. Um dia aparentemente comum. Acordo, tomo meu banho e o café da manhã. Pego minha bicicleta e deixo a casa nos fundos rumo à garagem, ponto de ligação entre a residência e o minimercado que, por anos, foi o sustento de minha família e de tantas outras da Vila Furlan.

Meu pai, José Antônio, com o compadre Hudson, meu padrinho e segundo pai

Por algum motivo, que não me lembro qual, saio de fininho, sem um adeus sequer a meu pai, já posicionado em um dos dois caixas do mercado, sorridente como sempre, mesmo àquela hora do dia. Recordo-me que havíamos brigado, não me lembro por qual razão, e em uma atitude imatura resolvi ir embora sem dizer um simples 'tchau'! E nunca mais teria tal oportunidade.

Pedalo, pedalo e pedalo até chegar ao trabalho. Sento-me em frente ao computador e começo a dedilhar palavras que sequer recordo, matérias das quais não me lembro. De repente, como rotineiramente, o telefone toca. Era uma das empregadas do mercado: “Assaltaram o mercado, seu pai tomou um tiro. Mas está tudo bem”.

Aturdido, mas ainda assim ciente de que deveria correr ao Hospital, pedi uma carona. Lá, pouco depois de consolar minha mãe e procurar informações, fomos levados ao médico que atendeu a emergência. A notícia, desoladora: “ele perdeu muito sangue e infelizmente, não resistiu”. Até hoje não lembro qual foi minha reação, além de pedir à enfermeira que ajudasse minha mãe.

Do lado de fora, a família aguardava. Abracei meu irmão e minha irmã e disse: “o pai não está mais entre nós”. Nestes momentos, nunca há o que dizer, nunca há consolo ou carinho suficiente. Resta apenas uma incredulidade frente a uma realidade da qual nunca pensamos que seria nossa.

Depois de passar pela Delegacia e conferir os trabalhos da Guarda Municipal, fui até a Funerária e encaminhei todos os procedimentos necessários. Acompanhei o funeral e recepcionei os amigos e familiares. Foi somente quando cheguei em casa, após horas intermináveis, que consegui chorar. Foram horas e horas de um misto de dor, revolta, saudade.

Hoje, quase oito anos depois, ainda me lembro de tudo como se fosse ontem. A saudade aumentou, a ausência incomoda. Por tempos tentei recordar por qual razão havia saído de casa naquela manhã sem me despedir. E há tempos deixei de tentar lembrar. Afinal de contas, o que eu REALMENTE queria era apenas voltar no tempo e dizer 'tchau'! Um abraço e mais um sorriso seriam um bônus. Carinhos os quais nunca mais terei, mas que durante 25 anos fizeram parte da minha vida. E por isso, serei grato eternamente. Pai, onde estiver, sei que sabe do meu amor por ti. Incondicional e muito mais forte que apenas um 'tchau'!

Eu com meu pai e minha irmã caçula, Ana Carolina, no minimercado da família

8 comentários:

Anônimo disse...

Muito bonito o que vc escreveu. Não se encomode por não ter se despedido dele fisicamente, pois tenho certeza que ele ouve todos os "tchaus" que ja foram ditos por vc e sua família. Adoro quando ouço a sua irmã contar as histórias dele.

Abraços Fabião!!!

Rodrigo Bejar

Ana Carolina disse...

pois é, como a vida é fascinate! saudades eternamente...

Nossa Fábio, tenho tantas lembranças do Tú, me lembro perfeitamente como se fosse ontem do sorriso estampado em sua cara 24hs por dia, quantas e quantas vezes passamos horas e horas na porta do mercado.

Saudades do teu pai!

abs

Filiphe

Driza disse...

Eu me lembro desse dia. E com seu texto lembrei do meu paizinho tb. Ele tá lá no céu junto com o seu.

bjs Fábio

Anônimo disse...

Muito Lindo o que vc escreveu...fica em paz..Que Deus possa consolar seu coração..e tirar esse sentimento de não ter despedido dele!!!

Bjus

Cassiana...

Katinha Mora disse...

Só li agora seu texto.

Fabio,
eu e minha familia conhecíamos seu pai. Que homem feliz ! Sempre, em todos os momentos !

Acredito que nos dias atuais, não seja diferente ...

Paz ! Sempre !

Anônimo disse...

è Fábio parece que foi ontem...seu pai era um cara muito gente boa..sempre atendia bem as pessoas..sei que ele está num lugar privilegido no céu ...e pode ter certeza que ele está sempre do seu ado e da sua família ..
Abraçooos

Carlos Eduardo Marciano disse...

O tempo cura todas as feridas....
Eu tomo esta frase como uma quase verdade....
O tempo nos faz perceber que é possível continuarmos e que devermos continuar...
O tempo diminui a dor, mas não estanca...
O tempo aumenta a saudade... Saudades dos longos papos, das brincadeiras deste incorrigível sarrista!!!

Pai, te amamos muito.... Hoje, a minha maior ambição é ser um dia tão bom quanto foi com todos nós.

SAUDADES