Os Canarinhos da Esperança

Já não sou mais um jovenzinho. Me encontro naquele período crítico, em um limbo da minha própria timeline: nem jovem, nem velho. Mas já trago comigo algumas recordações e histórias. As que vou lhes contar aqui remete à minha infância, em uma homenagem ao dia destes pequenos e alegres seres que estão a povoar nosso planeta.

Na Indaiatuba de ontem, era normal a criançada se mandar para a rua quando terminava a 'lição de casa' ou se cansava da televisão ou do videogame. O meu território era o Parque Boa Esperança, nas proximidades do estádio do Esporte Clube Primavera. Ali, na Rua Estados Unidos, nasceu uma das mais insignificantes, porém adoradas, agremiações futebolísticas de todos os tempos: os Canarinhos da Esperança!

Ridiculismos nominais à parte, é evidente que nosso intuito era homenagear a Seleção Brasileira, que enfrentaria altos e baixos na década de 90. Nossa equipe era ímpar: eu, de óculos fundo de garrafa, aproveitava meu físico 'avantajado' para garantir segurança à defesa. No meio tínhamos Fábio Motta, hoje funcionário público, que também acumulava a função de psicólogo da equipe, além de meu irmão, Carlos Eduardo, cuja técnica de fechar os olhos antes dela chegar ao seu domínio é até hoje incompreendida por muitos. O responsável por 'quebrar' carinhosamente os adversários era Karol Zerbini, hoje empresário de sucesso, com seu falar fanhoso e carisma inconfundível.

No ataque, André Geraldini, outro empresário de sucesso, garantia os parcos gols da equipe, mesmo sem muita malícia com a bola. Outro que frequentava a banheira era Ricardo 'Guns', que aproveitava sua alta estatura para fazer gols de cabeça, mesmo em traves imaginárias marcadas única e exclusivamente por dois chinelos Havaianas fixos ao chão. O talismã da equipe era Marco Aurélio, também conhecido como Marco 'Oreia', apelido garantido por suas protuberantes ferramentas de audição.

E foram justamente estas traves imaginárias que deixaram em dúvida, até hoje, um dos maiores clássicos disputados pelo Canarinhos da Esperança. Os adversários? Os temidos craques da Vila Avaí, capitaneados pelos irmãos Erlon e Marlon, que tinham tudo para fazer carreira no futebol. Marlon sei que não fez, hoje é bancário. De Erlon, nunca mais ouvi falar.

Jogo corrido, de muitos gols. Como não tínhamos goleiros, só marcava quem chegasse perto da área. Segundos finais de partida e uma bola é alçada na área. Guns cabeceia. Osvaldo Ganzarolli, o Gansão, grande incentivador dos Canarinhos, sai comemorando, para estranhamento de muitos. Como capitão da equipe, entrei na onda e os demais vieram juntos. O Vila Avaí reclamava veladamente, pois se encontravam em território inimigo.

Assim terminara aquela partida inesquecível. Sim, inesquecível pois até hoje ninguém sabe o que ocorrera exatamente. Sabemos apenas que aquele dia seria celebrado por muito tempo. Hoje, estamos 'experientes' e o futebol só é visto na televisão. Nem nos encontramos mais com certa regularidade. Mas as lembranças daqueles tempos de companheirismo e muita traquinagem persistem. Assim como o troféu imaginário na mente de cada um de nós.

“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons” - Carlos Drummond de Andrade

1 comentários:

Fabio Motta disse...

História bonita Fabio. Parabéns.

Mas corrige aí, sou funcionário público e não advogado. No mais, irretocável, inclusive a menção à "técnica apurada" do Karol.

Manda um abraço pra Dona Cida e para o Du.