Análise – Tropa de Elite 2

Crédito: Alexandre Lima

Até hoje, nenhum filme nacional pós-Retomada havia me impactado tanto quanto Tropa de Elite (2007). A história bem contada e as sacadas geniais do diretor José Padilha e do roteirista Bráulio Mantovani, junto com a atuação magistral de Wagner Moura - que 'roubou' o filme para si – levaram 2,5 milhões de pessoas aos cinemas. Número que poderia ser maior não fosse a ação da pirataria.

Todos estes elementos elevaram a expectativa pela chegada de Tropa de Elite 2 (2010), que estreia hoje, dia 8, nos Cinemas Multiplex Topázio. E o trio, mais uma vez, nos joga dentro de uma realidade por poucos conhecida e por muitos ignorada. Roberto Nascimento (Moura), antes Capitão do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), agora atende pela patente de Coronel. Seu sucessor é o até então 'aspira' Mathias (André Ramiro), que acaba cometendo um erro que afasta ambos da corporação.

Mas Nascimento acaba, ironicamente, sendo privilegiado pelo que muitos não consideram um erro. Como estamos em ano de Eleições (qualquer semelhança NÃO é mera coincidência), o Governador do Rio de Janeiro o eleva a subsecretário de Segurança Pública. Longe da ação dos morros, mas perto do coração central do poder, o Coronel ganha força para extinguir os traficantes.

É então que compreende: as drogas são apenas um meio de manter as maquinações do 'Sistema'. Logo uma nova força surge e, para piorar, com o envolvimento ainda mais direto daqueles que deveriam estar contra. Assim nascem as milícias. Um novo e ainda mais terrível inimigo, que obrigará Nascimento a rever toda a sua estratégia de batalha, a encontrar tempo para manter-se ao lado do filho e ainda defender a vida de toda a família.

Tropa de Elite 2 é uma evolução natural de seu antecessor. A câmera de Padilha é ainda mais eficiente, seja nas cenas de ação ou naqueles sem movimentação. O texto de Mantovani está ainda mais afiado e exige total atenção do espectador (como se fosse possível desprender os olhos da tela). No elenco de apoio, os ótimos Irandhir Santos como Diogo Fraga, um ativista pelo direitos humanos que não pouca críticas a Nascimento; Milhem Cortaz, que se tornou Coronel da PM, mas continua sem escrúpulo algum; e Sandro Rocha, que no primeiro filme tem uma rápida e impactante participação e ganha destaque nesta continuação. Sem falar em Seu Jorge, como o temido Beirada na primeira cena de ação do filme.

Em seu blog, o jornalista e crítico de cinema do Estadão, Luiz Carlos Merten, descreve sua reação após assistir Tropa de Elite 2. “Quando o filme terminou, fiquei parado, impactado. Me deu uma tremenda vontade de chorar, um vazio. Vocês talvez sintam isso quando assistirem ao filme. É tanta miséria, falo da miséria moral, esse casamento de milícia e política que Padilha critica e que não se circunscreve ao Rio, cenário da ação”. Não poderia ter descrito melhor a sensação que senti ao final do filme. Maravilhado pela obra, enojado pelo retrato fiel da política nacional. Sei que não devemos generalizar. Mas virar a cara é um erro sem precedentes.

Tomara que o cinema, fazendo uso do entretenimento, consiga levar o público de Tropa de Elite 2 à reflexão. Que a violência presente na tela não desvie o foco, mas seja subentendida como uma ferramenta para mostrar que existem outros tipos de violência, aquelas que escapam do campo físico e se tornam morais, ou melhor dizendo, completamente imorais. Mas não dá para fazer de conta que tudo aquilo não existe. Como diz Nascimento ao final do filme, o sistema é foda!

PS: Agradecimentos especiais a Paulo, Paulinho e Guerino Lui, dos Cinemas Multiplex Topázio, pelo convite para conferirmos o filme em sessão na manhã de hoje

0 comentários: